Diário de um isolamento – Dia 11

Nada a assinalar. Mesmo.

Às vezes sinto que está tudo bem. Simplesmente estamos mais em casa, é uma fase, vai passar. Não é o fim do mundo. Aquele clássico “Vai correr tudo bem”, com o arco-íris atrás.

Mas depois vejo as notícias. Eu não sou aquela pessoa que está sempre a ver notícias. Vejo notícias uma vez por dia, a seguir ao jantar, o Telejornal da RTP1. E todos os dias parece que me surpreendo com a dimensão que isto atingiu, atinge e vai atingir ainda. Já nem entendo bem os números, sabem?

Não consigo entender quem diz que isto é uma oportunidade de mudança.

Acho simplesmente estúpido dizer isso. Agora que estamos nisto, se calhar até vamos mudar. Porque queremos, porque nos forçam, porque não temos outro remédio. Mas daí a olhar para isto como a tábua de salvação para a Humanidade… poupem-me.

(Deu para ver que foi um dia negro, certo?)

A parte boa foi falar com a minha amiga Telma por videoconferência. Não é uma novidade do tempo Covid-19, pois estamos a trabalhar num projeto juntas e foi a forma que encontrámos de ir reunindo, sem ser presencialmente. Já o fazemos há uns 2 meses. Curioso que agora esta seja a norma.

Até amanhã.

#fiqueemcasa

Diário de um isolamento – Dia 10

Hoje é Natal cá em casa. Não enlouqueci, só levei a ideia da Livraria Aqui há gato de forma literal. E porque não? Não dizem que o Natal é quando o Homem quiser?

Só fui buscar a árvore e os enfeites, o P tratou do resto. Fez desenhos para os avós, os tios e os primos, são as prendas. Fomos deixar nas caixas de correio e viemos embora.

Vai ser Natal cá em casa até domingo.

E já combinámos que seguimos para as outras festas. A seguir temos os Reis e o Carnaval. É uma brincadeira, claro. E fez-nos rir. Só por isso vale a pena.

Hoje o P dizia-me “Mamã, gosto quando te ris muito”.

Quando ele diz uma coisa engraçada e me rio, repete-a vezes seguidas, como que à espera de perpetuar esse meu riso. Eu rio-me. Também choro, claro, mas tento que seja quando ele não está ao pé.

Até amanhã.

#fiqueemcasa

Diário de um isolamento – Dia 9

Esta foto não foi tirada hoje. Foi tirada num tempo diferente e, parece, há muito muito tempo. Hoje não tenho uma única foto para partilhar, mas passei aqui para pôr uma foto bonita, de tempos mais bonitos.

Eu não me estou a queixar.

Estou em casa, em segurança, tal como todos os meus amigos e família. Mas isso não quer dizer que tudo isto não custe.

Vêm-me lágrimas aos olhos com o drama de Itália. E raiva com a estupidez americana.

Cá em casa, foi mais um dia. Trabalhar, cozinhar, limpar, arrumar, brincar, exercitar. Repeat.

Mas, no meio disto tudo, o professor de música do P enviou músicas para ouvirmos, só músicas, e ficámos os 3 a ouvi-las, sentados no sofá. Algumas eram fofinhas, outras divertidas e outras calmas. E levaram-nos para um sítio diferente.

Até amanhã.

#fiqueemcasa

Diário de um isolamento – Dia 8

2ª feira tem sido o dia mais difícil por aqui (ainda só passaram duas, a sério?) Engraçado que não é diferente do habitual. Sentada no sofá, já tudo arrumado, e a máquina de lavar a trabalhar, até acho que não foi assim tão mau. Estamos aqui, com saúde, afinal.

O dia de isolamento 8 foi de:

  • Colei uma série de folhas e sugeri ao P que fizesse um arco-íris gigante. Ele sempre gostou de arco-íris e agora tem um significado acrescido
  • Fiz falafel para o almoço. Há uns meses aderimos à #meatlessmonday mas fazer duas refeições veggie num dia obriga a planeamento. Ao jantar, o homem fez tortilha
  • Demos um passeio pelo bairro a seguir ao almoço. Sim, ficamos em casa, mas damos sempre um pequeno passeio no bairro ou um pouco à volta.
  • O P contou-nos histórias. Foi maravilhoso vê-lo de livro na mão, a contar a história como se a lesse ♥️
  • Falámos com amigos da escola do P. Ele adorou, eles também, foi um momento bonito

O que o P. mais e menos gostou do dia

  • Mais: falar com os amigos
  • Menos: (já não me lembro o que ele disse…)

Até amanhã.
#fiqueemcasa

Diário de um isolamento – Dia 7

Vivemos ao lado de um parque. Está fechado, claro. Mas dá para passear a toda a volta, junto à vedação, é um passeio agradável. Foi isso que fizemos, para começar o domingo.

Nós e outras pessoas que, dessa forma, procuram mexer-se, esquecer um pouco o que se passa e ter uma sensação, ainda que fugaz, de uma vida normal. Mas não estava nenhuma enchente, como a que vimos mais tarde no telejornal, em algumas marginais a norte.

Têm surgido uma série de iniciativas online maravilhosas.

Não gosto de estar sempre no telemóvel, nem acho que seja saudável. Mas algumas iniciativas gosto de acompanhar, e partilho aqui. Assim como pessoas, algumas que já acompanhava, e outras que descobri agora.

Festival Eu Fico em Casa

Este festival acontece no Instagram, diretamente da casa de muitos músicos que se juntaram, para trazer música a quem está em casa. Tem concertos de meia hora, entre as 17h e as 23h, todos os dias.

Não tenho visto todos, mas às vezes ligo-me para ouvir um pouco de música com outras pessoas – de alguma forma, parece que estamos a ouvir em conjunto, como numa sala de espetáculos.

Hora do conto da Livraria Aqui há gato

Esta livraria fica em Santarém e, possivelmente, nunca lá iria. Mas, por causa deste momento que acontece duas vezes ao dia, ir a esta livraria já tem lugar cativo no frasco dos desejos.

Joana Limão

A Joana Limão é uma chef de cozinha com um Instagram maravilhoso e que parece ser uma pessoa muito especial. Já a acompanho há algum tempo, gosto de ver as receitas de comida boa, os hábitos de vida saudável e, no geral, a boa energia dela. E neste momento em que preciso de boa energia, acompanhá-la é terapêutico.

Mariana Castello Branco

Descobri-a hoje. Diz-se artista, soprano e food stylist. Todos os dias tem partilhado um cover de uma música, acompanhada à guitarra pelo Christian Lujant. E, sem que seja preciso muito, fez-me chorar com a sua voz límpida e melodiosa.

E a propósito de chorar, diz-me o P o seguinte:

Quando tu estás triste, como há bocado, vou buscar um copo de água e digo, respira fundo.

É isso que farei. Respirar fundo, sempre e quando seja preciso. Todos os dias, possivelmente.

O dia de isolamento 7 foi de:

  • Passear a pé à volta do parque
  • Andar de bicicleta no bairro – andámos os três às voltas no bairro 🙂
  • Fazer puzzle de 1.000 peças (só o homem fez)
  • Ler um pouco de O Jogo do Anjo de Carlos Ruiz Zafón
  • Escrever um pequeno conto do livro 642 things to write about
  • O P esteve a escrever letras em vários papéis – nunca o tinha feito

O que o P. mais e menos gostou do dia

  • Mais: escrever as letras
  • Menos: que o Pai não tivesse querido ajuda para fazer o puzzle (em defesa dele, o P só estava a atirar as peças)

Até amanhã.
#fiqueemcasa

Diário de um isolamento – Dia 6

Hoje acordei impaciente. Irritadiça. Suponho que seja normal, e tento contrariar, mas nem sempre consigo.

A semana toda à espera de sábado, para ver o Panda Fu 🙂

Fizemos pipocas, montámos o projetor e fizemos uma sala de cinema, com as colunas do tio Gonçalo.
Foi um dia um pouco difícil. O P. estava embirrante e eu estava irritadiça. De alguma forma, parece que as coisas estão sempre juntas, uma alimentando a outra.

Mas fomos ver os avós, em estilo Romeu e Julieta – avós na varanda e nós na rua.

Quem diria que um dia ia estar a conversar com os meus pais desta forma, e a pedir que tenham cuidado com eles. Impossível conseguir que não vão às compras, claro. Mas sei que se cuidam e sabem que é grave. Só resta esperar que se mantenham seguros e a salvo.

No meio disto tudo, o P vai fazer 5 anos daqui a 2 semanas.

Está visto que vai ser passado em casa, nós os 3. Para amenizar o facto de não ter festa com família e amigos, vou começar a pensar num dia cheio de surpresas. Embirrante ou não, merece um super dia de anos – mesmo em isolamento.

O dia de isolamento 6 foi de:

  • Ir ver os Avós
  • Ver o Panda do Kung Fu, com direito a pipocas
  • Fazer limpezas (a vida continua né?)

O que o P. mais e menos gostou do dia

  • Mais: ver o Panda Fu
  • Menos: nada (!!!)

Até amanhã.
#fiqueemcasa

Diário de um isolamento – Dia 5

6ª feira. Há quem diga que os dias agora são todos iguais, mas eu não acho. Durante a semana pomos despertador, comemos a horas certas e temos (mais ou menos) um horário de trabalho.

Por isso, é bom chegar ao final da semana.

É só a mim que isto tudo parece um sonho? Ou, melhor dizendo, um pesadelo. Quando acordo de manhã, há um bocadinho em que está tudo bem – aquele bocadinho antes de tomar consciência de tudo, e lembrar o que se passa.

Disse antes que estar com uma criança em casa, por um lado, ajuda. É preciso pensar em algumas coisas para ele fazer, embora nós também o deixemos ter ideias por ele, não somos os palhacinhos de serviço 🙂

Mas depois há o outro lado.

Não há um minuto de sossego ou de silêncio (só quando ele está a dormir, claro). Mesmo quando está entretido, está sempre a falar. E se isso já é cansativo num dia normal, a tentar trabalhar então, pode ser um desespero. Já dei comigo a tapar os ouvidos, para me tentar concentrar numa coisa específica. Porque pedir-lhe que fique um pouco em silêncio, porque precisamos de nos focar não funciona (eu sei que não funciona porque já tentei).

O dia de isolamento 5 foi de:

Encomendar Uber Eats

Fazer almoço e jantar todos os dias dá trabalho. Preparar a comida, lavar louça, arrumar tudo. Over and over again.
Por isso, instaurámos uma nova rotina (o ser humano gosta mesmo de rotinas, mesmo que diga que não) – encomendar comida uma vez por semana.

Hoje foi dia de pizza, do Focus. As pizzas estavam boas, o serviço de entrega nem por isso. Com o isolamento social, dá para dizer se quisermos a comida à porta, e foi isso que fizemos. O problema? A falta de zelo dos rapazes que entregam a comida, e que não verificam a morada (mas há que dizer que, ainda mais nesta altura, fazem um trabalho exposto e difícil, por isso demos um desconto). Quando descemos, a comida não estava lá.

O homem andou por todo o bairro à procura, e lá encontrou, 2 ruas ao lado. Pelo menos não ficámos sem almoço! Vamos a ver se corre melhor para a próxima.

Fazer legos

O P. passou o dia a fazer legos. O que vale é que ele se entretém a fazer legos (bom, está de 2 em 2 minutos a vir mostrar a peça que encaixou). Na verdade é difícil para nós e também é para ele, embora de forma diferente.

O que o P. mais e menos gostou do dia

  • Mais: fazer um dragão de lego com o Pai
  • Menos: a Uber ter entregue a comida noutro sítio

Até amanhã.
#fiqueemcasa

Diário de um isolamento – Dia 4

Foi Dia do Pai – a ironia é que foi o primeiro Dia do Pai que o meu homem passou todo com o nosso P. E mesmo nestas circunstâncias, foi um dia bestial.

Não sou insensível ou alheada da realidade. Já me emocionei com o meu Pai, a dizer que se está a cuidar, mas que sabe lá se não pode acontecer. Com o médico italiano que está desesperado e cansado e que apela a que os ajudem.

Mas o meu dia começou a ajudar o P. a fazer sumo de laranja natural para o Pai.

A lançar bolas de sabão ao vento e ouvir as gargalhadas dele enquanto eu saltava para as rebentar. E, o melhor de tudo, a fazer um frasco com desejos – coisas que queremos fazer quando tudo isto passar. Coisas simples como:

  • ir comer um gelado
  • fazer um piquenique
  • ir de comboio até Lisboa e almoçar fora

E, no final do dia, o P que, como todas as crianças, vive no presente, disse que foi o melhor dia da vida dele ♥️

O dia de isolamento 4 foi de:

➡️ ir à rua duas vezes – uma para dar um pequeno passeio à volta de casa e outra para ir à praceta lançar bolas de sabão
➡️ fazer o frasco dos desejos (ansiosos para começar a abrir os papelinhos e fazer tudo o que lá está)

O que o P. mais e menos gostou do dia

  • Mais: fazer o frasco dos desejos
  • Menos: não estar com o Pedro e o Filipe, os amigos da escola

Até amanhã.
#fiqueemcasa

Diário de um isolamento – Dia 3

Por um lado, ter uma criança em casa, enquanto trabalhamos, é difícil. Por outro, é o que traz alegria e até alguma despreocupação no dia-a-dia. Porque o P torna tudo mais leve e colorido ♥️

Sabe que há um vírus que põe as pessoas doentes. Que não podemos ir aos avós, à escola ou ao parque infantil. Mas também sabe que está em casa com ambos os pais. E gosta, apesar de tudo.

O dia de isolamento 3 foi de:

➡️ aula de meditação – o P é o professor
➡️ fiz pão artesanal
➡️ toques na bola na praceta do bairro
➡️ o P recortou ninjagos do catálogo da Lego e andou a brincar com os recortes
➡️ fizemos a prenda do dia do Pai
➡️ dançámos à maluca ao som do Branko no Festival Eu fico em casa

O que o P mais e menos gostou do dia

  • Mais: dançar à maluca
  • Menos: não estar com o Pedro e o Filipe, os amigos da escola

Até amanhã.
#fiqueemcasa

Diário de um isolamento – Dia 2

Muitos já falam do dia 4 ou 5 nesta situação. Para nós, foi o segundo. Os 5 em casa, a contar com os gatos, que muito estranham não irmos a lado nenhum.

Adultos a trabalhar, criança a apreciar. Por enquanto.

Ontem foi um pouco duro. Hoje mais fácil. Suponho que assim seja daqui para a frente – uns dias melhores que outros, como sempre, mas tão tão diferente.

O fotógrafo António Pedro Santos lançou um desafio de documentarmos o nosso dia-a-dia de isolamento social e vou tentar fazê-lo.

O dia de isolamento 2 foi de:

➡️ puzzle totalmente inacabado
➡️ hora do conto da livraria Aqui há gato
➡️ toques na bola na praceta do bairro
➡️ concerto do André Henriques e David Fonseca no Festival Eu fico em casa
➡️ crepes para o jantar

O que o P mais e menos gostou do dia

  • Mais: Ir jogar à bola e comermos crepes
  • Menos: não lhe darmos atenção (mas diz que entende)

Até amanhã.
#fiqueemcasa